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The Librarian

why so salty?

Katerina, quem pensas tu enganar com os teus posts? As tuas inocentes leitoras que anseiam por alguma ação na vida? Ou a ti mesma que escreves sobre a vida que anseias ter mas está tão distante como a lua está da terra?
xoxo,
The Curious Reader

 

Se há uma coisa na minha personalidade que ainda não consegui dominar, é a minha relutância em ficar calada. Estava a planear ignorar esta mensagem (e fazer de adulta), mas isso não teria graça nenhuma.

Estou confusa com a percepção que o leitor tem da minha vida, e a sua definição de uma vida cheia de acção. Foi a minha única semana de férias durante 3 meses? Foram os meus textos sobre literatura? Foi a minha entusiasmante descrição de um trabalho de verão no escritório? A falta de qualquer tipo de romance na minha vida? Ou foi mesmo aquele post que escrevi aqui há uns tempos sobre um (um!) episódio interessante que me aconteceu há uns anos atrás?

 

São as viagens entre o Reino Unido e Portugal que parecem assim tão glamorosas? Aquelas que faço por lá estar a estudar e por ser filha e irmã de emigrantes?

 

Agora, serão as minhas habilidades académicas que despontam esta óbvia animosidade? Se é esse o caso, sorry but not sorry. Sinto-me muito orgulhosa por ter conseguido uma bolsa (porque sou inteligente e trabalhadora) numa das melhores universidades europeias. Sim, vou mencionar esse facto em todas as oportunidades que tiver. Não sou uma pessoa humilde, e sinceramente - é o meu blog pessoal. Deal with it.

 

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IRISH MIST

No avião, à espera de descolar, a Claire deslizou para o banco ao meu lado e sussurrou: "Pede champanhe - nós conseguimos o "Actor Famoso!"

"Tu és inacreditável", disse eu, já chamando a hospedeira. "Como raios conseguiste isso?" Ela descansou a cabeça contra o assento, fechou os olhos, e, sorrindo para si mesma, contou-me a história.

Ela tinha apanhado o avião para França, onde o "Actor Famoso" morava com a esposa na altura, e simplesmente se atirou de cabeça e tocou à campainha.

"Não acredito." Disse eu entre gargalhadas. "Que lata!"

"Ele provavelmente precisa do dinheiro, ou talvez esteja apenas entediado, ou talvez goste realmente do roteiro."

Pelo que eu me ri ainda mais alto e disse: "Achas que sim?"

"Mas de qualquer forma", continuou ela, "ele concordou, e vai estar na Irlanda em uma semana."

Eu podia ver que a Claire estava à beira de se afundar num sono bem merecido, mas precisava de uma peça final de informação. "Diz-me, Clairabel, ele parece muito velho?"

Ela sorriu. "Estás a brincar? Ele é divino". E com isso, ela caiu num belo sono.

Divino era tudo irlandês, como Deus havia pretendido. Eu nunca tinha visto tal luz, incandescente e mística. Pores do sol cintilantes e, de repente o céu abria e uma fina chuva começaria a cair, gaivotas voando em ascensão, os borrifos das ondas ao encontro das nuvens numa deslumbrante exibição de beleza. Fiquei sentada durante horas, fascinada pelo jogo de cores.

Hipnotizada, também, pelas pessoas e a maneira singular que têm de nos puxar para si. Craic, como é chamado em gaélico. Fazer conversa em irlandês. Mas os irlandeses nunca conversam simplesmente; são incapazes de tal coisa. Em vez disso, encostam-se contra o bar do pub, guardando uma caneca de Guinness, e com os olhos baixos, iniciam um incêndio de queima lenta com uma única provocadora, e muitas vezes murmurada, observação, acendendo uma conversa que circula e chicoteia e dança de homem para homem, enquanto cada um por sua vez pede uma rodada, e o fumo dos cigarros enche a sala. Não são muitas as mulheres que se podem encontrar ao balcão, mas os homens são capazes de clemência, se estiverem alinhados com cerveja, e o rosto ao seu lado for jovem e bonito, e a voz distintamente estrangeira.

Um Galês na Irlanda é uma coisa perigosa, estando temperalmente dividido, como ele estava, entre duas culturas turbulentas. o "Actor Famoso" (que vou passar a chamar daqui para a frente simplesmente "John") era bondoso, complexo, e profundamente tímido. O seu talento era notável, e nas nossas cenas juntos muitas vezes dei por mim completamente cativada pela sua ternura, o seu perfeito controle, e a sua capacidade de atingir notas de uma elegância que eu não sabia existirem no texto. Ele engraçou comigo, que foi uma coisa muito boa, porque ele não tolerava tolos e, muitas vezes, depois de beber alguns copos, não tolerava ninguém, de todo. Uma noite,num jantar muito agradável que a Claire organizou numa quinta que havia sido maravilhosamente convertida num restaurante íntimo, eu assisti enquanto o John bebia até chegar a um estado de fúria.

O vinho não o fazia abrandar; ampliava a sua volatilidade, de modo que toda a gente sentiu a lenta, inexorável descida até ao turbilhão, mas viram-se incapazes de fazer qualquer coisa sobre isso. De repente, John deu um murro na mesa e gritou, ao som de copos quebrando e do crepitar das velas, "Vão-se embora daqui! Excepto a Katerina" - aqui ele colocou a mão sobre a minha - " A Katerina fica. O resto de vocês podem-se foder daqui para fora!"Misericordiosamente, a sua adorável esposa tinha optado por ficar no hotel e trabalhar durante a noite. Ocorreu-me que o trabalho desta mulher pode ter sido sua salvação.

Quando a sala ficou vazia, John virou-se para mim e, pegando a minha mão na sua, disse, "Ouve-me, Katerina, e ouve-me atentamente. Sai. Daqui." Olhei para ele, imobilizada com medo e confusão, sair para onde? Sair de onde? Em seguida, puxando o candelabro mais perto, ele sussurrou, "Esta carreira vai-te matar. Sugar-te a alma, roubar-te a tua humanidade, tornar-te numa carapaça vazia daquilo que já foste uma vez. Não é lugar para um homem de verdade", ele apontou para si mesmo, com a cabeça baixa - "e é a morte de uma boa mulher. Sai antes que seja tarde demais."Com isto, levou a minha mão aos lábios, beijou-a e disse: "Agora sê uma boa menina, e mete-te na rua."

E foi o que eu fiz, talvez por me deixar levar pelas minhas inseguranças, o meu medo de fracassar, talvez pelo impressionante poder deste episódio, ou o meu desejo irracional de fazer tudo o que ambiciono ao mesmo tempo - larguei o teatro, e entrei para a universidade.

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ADOLESCENCE (1)

Depois de um primeiro dia particularmente desanimador quando entrei para o secundário, em que a minha arrogância despertou mais uma vez a insegurança dos meus colegas de turma e levou-os a actos de mal disfarçada hostilidade, cheguei a casa e anunciei para a minha mãe que o secundário era um completo desperdício de tempo, que ia propor-me à graduação antecipada, que tinha o meu coração destinado a entrar na LAMDA (Academia de Música e Arte Dramática de Londres) e que nada me iria impedir (na altura ainda queria ser uma grande actriz)."Muito bem!" respondeu a minha mãe, batendo a mão na mesa da cozinha para dar ênfase. "Mas vais precisar de conseguir um emprego para cobrir as despesas. E eu não poderia concordar mais contigo sobre o ensino secundário. Um deserto de mediocridade. Além do que, eu sempre disse que todos os rapazes com idades entre os quinze e os vinte-cinco deviam ser encarcerados."

 

Uma vez que o meu foco tinha sido redireccionado, não havia tempo a perder. Tive dois empregos em rápida sucessão e não parecia perturbar ninguém que eu fosse menor de idade, muito menos o meu empregador, cuja única exigência era que eu vestisse saias um pouco acima do joelho, ao invés das mini-saias que se usavam na altura. Eu trabalhava a sério, fazia boas gorjetas, corria para os ensaios da Escola de Teatro, onde ganhei o papel principal em quase todas as peças, e passava o meu tempo livre a inscrever-me em programas de teatro durante as férias.

 

Havia rapazes, também, é claro. Todos os tipos. Incrível a elasticidade do nosso tempo quando um romance deve ser incluído no horário. Houve o típico jogador de futebol, alto, bonito, e sorridente, que me enganou e quebrou-me o coração; houve o psicopata carismático (universitário) que, depois de eu lhe ter dado um estalo por me ter deixado pendurada, pediu uma segunda oportunidade e levou-me a passear de carro, acabando a noite a ameaçar-me com um pé de cabra e deixando-me no meio do nada, a quilómetros de lugar nenhum. Haviam os homens que encontrava em casa, alguns deles amigos do meu pai, outros conhecidos da família que passavam só para beber uma cerveja ou um café, a maioria deles bêbedos e todos eles com idade suficiente para ter juízo, mas nenhum disciplinado o suficiente para resistir ao impulso de namoriscar com uma adolescente precoce.

 

Curiosamente, isto nem alarmava, nem assustava os meus pais. "Um certo je ne sais quoi", dizia a minha mãe, ao que o meu pai respondia, olhando-me fixamente, "Sarilhos".

"Sarilhos", no vernáculo do meu pai, refere-se a qualquer coisa de natureza sexual. Eram deliciosos sarilhos, pecaminosos sarilhos, o tipo de sarilhos em que todos desejavam entrar e, na minha pequena família, frequentemente o faziam. 

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"MY LADY HORMONES"

Para falar sobre a minha primeira semana de trabalho num escritório, preciso de fazer com que entendam que este não é o meu primeiro emprego. Eu trabalho desde os meus doze anos (ainda que de forma ilegal), e comecei a trabalhar perto de casa para amigos dos meus pais, numa oficina, em cafés, mercearias, em quintas, e por aí fora. Quando fiz quinze anos e fui estudar para Lisboa decidi que quando acabasse a escola iria para a Universidade de Cambridge e precisava de dinheiro, por isso trabalhei em todos os lugares que pagassem alguma coisinha a uma criança de quinze anos.

Aos dezoito trabalhei em todos os restaurantes e bares existentes em Lisboa - o meu dia-a-dia era tão rigoroso que é difícil acreditar. Trabalhei e fui despedida mais vezes do que gostaria de admitir. O Tivoli - fui despedida do Tivoli por despejar um prato de esparguete no colo de um cliente (não estava com disposição para ouvir ninguém nesse dia), fui empregada de cocktail à noite, servia às mesas durante o dia, corria para a escola, morava num quinto andar sem elevador... não foi fácil, mas eu fi-lo.

 

Isto tudo para vos fazer entender que durante esta primeira semana na Penguin Random House, nunca me senti nervosa ou insegura quanto á minha prestação. Pelo contrário, sinto-me mais confiante e determinada do que é costume e, tendo em conta que confiante é o meu estado normal, este pequeno extra não é necessariamente uma coisa boa. Sou autoritária e exigente quando na realidade não tenho qualquer motivo para isso.

 

Desde o primeiro dia que tenho ouvido comentários sexistas de um dos seniores para as estagiárias, em modo de brincadeira mas extremamente inadequado, e hoje quando já não conseguia disfarçar a minha animosidade, fui acusada de me estar a sentir irritada devido às minhas hormonas. E, ignorando todas as outras vezes em que fui despedida pelo meu mau temperamento, pousei os papéis que tinha na mão e olhando-o nos olhos, disse-lhe: "Sabe, sou muito fácil de lidar na maior parte das vezes. Mas não gosto de ignorância, e não gosto de abusos de autoridade. E não gosto de si."

 

E agora estou deitada na minha cama, a olhar para o tecto, e a rezar para ainda estar empregada quando a segunda-feira chegar.

 

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BIRTHDAY FROM HELL

No mês passado, o meu irmão João fez a viagem de Birmingham até Londres para me visitar, e durante o jantar com a minha "família de acolhimento" deixou escapar que o meu aniversário estava para breve. A mãe do Ollie encheu-se de entusiasmo e decidiu que devíamos fazer uma grande festa e convidar todos os nossos amigos da universidade "Para celebrar a juventude!", disse com grande felicidade. Consegui fazer com que se acalmasse e concordámos que uma simples tarde no jardim, com apenas dois ou três convidados seria uma boa alternativa e algo que me deixava muito mais confortável. Julguei que a conversa ficaria por ali até ela levar as mãos à cabeça e exclamar "Kate, devias convidar os teus pais!". Lancei um olhar de ódio ao meu irmão, e ele veio em meu socorro "A minha mãe anda sempre muito ocupada nesta altura, e tem de tomar conta dos miúdos que nesta altura estão todos a passar as férias em casa", "E o meu pai nunca sai para lado nenhum" acrescentei eu. "Não não não, devias ligar-lhes. Ainda temos um quarto vago, e íamos todos gostar muito de conhecer a tua mãe". "Ok, eu ligo-lhe assim que puder" prometi eu, e olhando para o meu irmão vi-o sorrir e revirar os olhos. Ambos sabíamos que tal nunca viria a acontecer. Posso ser mázinha, mas nem nos meus piores dias ia deixar que esta família simpática tivesse de interagir com a minha mãe.

 

Não me interpretem mal, a minha mãe é a pessoa mais maravilhosa do mundo quando está para aí virada, e grandes eventos de festividade são o seu habitat natural, onde acaba sempre por ser o centro das atenções e toda a gente fica encantada com o que ela tem para dizer. Mas é preciso levá-la com uma pitada de sal.

 

Ontem, quando cheguei a casa do trabalho a mãe do Ollie vem ter comigo e diz-me que a minha mãe telefonou lá para casa, e estiveram a conversar. "Oh?", foi a resposta mais articulada que consegui dar enquanto o pânico se instalava e o meu cérebro entrou em alerta vermelho. "E tenho óptimas notícias! Ela vem ao teu aniversário! Tentei convencê-la a ficar cá em casa mas ela insistiu em ficar num hotel aqui perto", obviamente que a minha mãe ficar na casa de outra pessoa nunca foi uma opção, mas nem isso me deu esperança. "Óptimas notícias!", repeti eu com falso entusiasmo, e corri para o meu quarto para telefonar à minha mãe. Consegui apenas dizer olá antes de ouvir a minha mãe gritar do outro lado da linha "Katy Kitten Kat Kiervan!"(não é um alias, é assim mesmo que ela me chama quando está irritada), "Que história é esta de não me convidares para os teus anos?! Estou aí dia 13" e desligou o telefone.

 

Respirei fundo e preparei-me para o que aí viria. Vou matar o meu irmão.

 

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DON'T BLAME ME

Uma coisa muito importante que aprendi a ver filmes é que quando trabalhamos num escritório nunca devemos ir buscar comida/bebidas para ninguém. A rapariga que começou hoje o estágio comigo cometeu o erro de não ver tantos filmes quanto eu, e quando o senhor que nos estava a dar formação olhou para nós e perguntou se alguém lhe podia trazer uma chávena de chá, ela levantou-se em dois segundos e marchou na direcção da cozinha. Passadas umas horas voltaram a pedir-lhe o mesmo e, com um ar muito infeliz, lá foi ela.

Entretanto alguém deve ter enviado uma circular a avisar que o escritório tinha agora serviço de esplanada, e durante o resto do dia a rapariga deve ter ido umas cinco vezes à cozinha.

Pensei em ser simpática e dizer-lhe que o trabalho dela não era aquele, e que se ela dissesse que estava ocupada ninguém levaria a mal, mas quando cheguei ao pé dela e abri a boca, cheia de boas intenções, acabei por lhe pedir uma chávena de café - "Forte, sem açúcar", e para minha maior surpresa, aquela parva levantou-se mais uma vez e foi buscar uma chávena de café para a miúda que deve ter menos dez anos que ela e só começou a trabalhar hoje. 

Eu tento ser boazinha, mas assim não dá para evitar...

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