No avião, à espera de descolar, a Claire deslizou para o banco ao meu lado e sussurrou: "Pede champanhe - nós conseguimos o "Actor Famoso!"
"Tu és inacreditável", disse eu, já chamando a hospedeira. "Como raios conseguiste isso?" Ela descansou a cabeça contra o assento, fechou os olhos, e, sorrindo para si mesma, contou-me a história.
Ela tinha apanhado o avião para França, onde o "Actor Famoso" morava com a esposa na altura, e simplesmente se atirou de cabeça e tocou à campainha.
"Não acredito." Disse eu entre gargalhadas. "Que lata!"
"Ele provavelmente precisa do dinheiro, ou talvez esteja apenas entediado, ou talvez goste realmente do roteiro."
Pelo que eu me ri ainda mais alto e disse: "Achas que sim?"
"Mas de qualquer forma", continuou ela, "ele concordou, e vai estar na Irlanda em uma semana."
Eu podia ver que a Claire estava à beira de se afundar num sono bem merecido, mas precisava de uma peça final de informação. "Diz-me, Clairabel, ele parece muito velho?"
Ela sorriu. "Estás a brincar? Ele é divino". E com isso, ela caiu num belo sono.
Divino era tudo irlandês, como Deus havia pretendido. Eu nunca tinha visto tal luz, incandescente e mística. Pores do sol cintilantes e, de repente o céu abria e uma fina chuva começaria a cair, gaivotas voando em ascensão, os borrifos das ondas ao encontro das nuvens numa deslumbrante exibição de beleza. Fiquei sentada durante horas, fascinada pelo jogo de cores.
Hipnotizada, também, pelas pessoas e a maneira singular que têm de nos puxar para si. Craic, como é chamado em gaélico. Fazer conversa em irlandês. Mas os irlandeses nunca conversam simplesmente; são incapazes de tal coisa. Em vez disso, encostam-se contra o bar do pub, guardando uma caneca de Guinness, e com os olhos baixos, iniciam um incêndio de queima lenta com uma única provocadora, e muitas vezes murmurada, observação, acendendo uma conversa que circula e chicoteia e dança de homem para homem, enquanto cada um por sua vez pede uma rodada, e o fumo dos cigarros enche a sala. Não são muitas as mulheres que se podem encontrar ao balcão, mas os homens são capazes de clemência, se estiverem alinhados com cerveja, e o rosto ao seu lado for jovem e bonito, e a voz distintamente estrangeira.
Um Galês na Irlanda é uma coisa perigosa, estando temperalmente dividido, como ele estava, entre duas culturas turbulentas. o "Actor Famoso" (que vou passar a chamar daqui para a frente simplesmente "John") era bondoso, complexo, e profundamente tímido. O seu talento era notável, e nas nossas cenas juntos muitas vezes dei por mim completamente cativada pela sua ternura, o seu perfeito controle, e a sua capacidade de atingir notas de uma elegância que eu não sabia existirem no texto. Ele engraçou comigo, que foi uma coisa muito boa, porque ele não tolerava tolos e, muitas vezes, depois de beber alguns copos, não tolerava ninguém, de todo. Uma noite,num jantar muito agradável que a Claire organizou numa quinta que havia sido maravilhosamente convertida num restaurante íntimo, eu assisti enquanto o John bebia até chegar a um estado de fúria.
O vinho não o fazia abrandar; ampliava a sua volatilidade, de modo que toda a gente sentiu a lenta, inexorável descida até ao turbilhão, mas viram-se incapazes de fazer qualquer coisa sobre isso. De repente, John deu um murro na mesa e gritou, ao som de copos quebrando e do crepitar das velas, "Vão-se embora daqui! Excepto a Katerina" - aqui ele colocou a mão sobre a minha - " A Katerina fica. O resto de vocês podem-se foder daqui para fora!"Misericordiosamente, a sua adorável esposa tinha optado por ficar no hotel e trabalhar durante a noite. Ocorreu-me que o trabalho desta mulher pode ter sido sua salvação.
Quando a sala ficou vazia, John virou-se para mim e, pegando a minha mão na sua, disse, "Ouve-me, Katerina, e ouve-me atentamente. Sai. Daqui." Olhei para ele, imobilizada com medo e confusão, sair para onde? Sair de onde? Em seguida, puxando o candelabro mais perto, ele sussurrou, "Esta carreira vai-te matar. Sugar-te a alma, roubar-te a tua humanidade, tornar-te numa carapaça vazia daquilo que já foste uma vez. Não é lugar para um homem de verdade", ele apontou para si mesmo, com a cabeça baixa - "e é a morte de uma boa mulher. Sai antes que seja tarde demais."Com isto, levou a minha mão aos lábios, beijou-a e disse: "Agora sê uma boa menina, e mete-te na rua."
E foi o que eu fiz, talvez por me deixar levar pelas minhas inseguranças, o meu medo de fracassar, talvez pelo impressionante poder deste episódio, ou o meu desejo irracional de fazer tudo o que ambiciono ao mesmo tempo - larguei o teatro, e entrei para a universidade.